quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

o escultor sem salão


A moça presidente se levantou de sua cadeira e bastou três passos para alcançar o nariz do escultor Enodo. Com o dedo em riste apontado para ele, vociferou:
-Se você quiser tentar assim mesmo, corre o risco de não se classificar. A comissão julgadora pode não aprovar.
Enodo alves era um escultor apaixonado. Sua escultura transcendia a média. Esculpia como os grandes escultores do passado. Era especializado em anjos. Como um verdadeiro artista, sobrevivia do seu trabalho.
Depois de algum tempo, humilhado pela moça, Enodo pensou um pouco e viu que ali não era seu lugar. Viu também que a reação da moça foi repreendida por todos da sala que saíram em silêncio.
Enodo não costumava participar de salões de artes. Como era profissional, gastava seu tempo trabalhando. Nunca tinha tempo para exposições, nem para salões de artes. É claro que com 20 anos de carreira, tinha um forte currículo. Era um nome conhecido na cidade e por que não usar sua influência para promover, participar e colaborar com o único salão da cidade.
Logo de início ficou surpreso com o regulamento. Muito sofisticado para uma cidade sem muitos artistas. Um regulamento digno de uma bienal internacional.

Muito burocrático, parecia um edital que exigia do artista mais que documentação.

Exigia um projeto. O artista tinha que "explicar sua obra" e produzir pequenos textos falando sobre a técnica e o material de seu trabalho.
O novo empreendimento exigiria uma dose de logística para superar seus tijolos burocráticos. Tempo e uma razoável soma em dinheiro seriam empregados por Enodo.

Duas cópias de um portfólio colorido. E que danado é um portifólio? Pensava.

Logo ele que costumava andar com as fotos de seus trabalhos.

Cópias da identidade, CPF, número da carteira de motorista.Comprovante de residência, PIS PASEP, número da conta no banco (só poderia ser do Banco do Funil) e assim prosseguia o desfile: Fotos 20 x 30 cm das obras, duas de cada, ângulos diferentes, coloridas. Por que uma escultura de cimento tem que ter a foto colorida? Questionava.

O tempo era curto. O edital saiu com 30 dias de antecedência, um tempo difícil para um artista produzir uma obra digna de um salão. Então Enodo levou o que tinha em casa. Um anjo de espada na mão, um São Jorge e um esqueleto de metal do próximo anjo. Eram duas peças de respeito e um esboço, que por si, respondia bem como estética artística.

Após vencer todas as etapas burocráticas, ele resolveu fazer sua inscrição no concurso. Chegou cedo na fundação de arte da cidade, era o último dia de inscrição e somente 20 artistas apareceram, uma péssima notícia. Mas, mesmo assim não se deixou abater.

Quando abriu a porta foi reconhecido por todos. Velhas figuras, personagens das artes da cidade descansavam suas nádegas em silenciosas poltronas sob um frio glacial dos aparelhos de ar condicionado, novos em folha.
Depois de ter suas documentações analisada, a primeira censura sussurrou de boca em boca até ser democratizada:

-Enodo, você não pode inscrever essas peças por que são duas esculturas e um objeto. Ou você inscreve três esculturas ou três objetos. Ta no regulamento. Tem mais, mesmo se inscrevendo em duas categorias, você só concorre em uma.

Enodo estático diante de tanta informação. Mesmo assim retrucou gentilmente.

- Então inscreva somente as duas esculturas, eu abro mão de uma vaga.

Mais uma vez a censura se fez presente, desta vez veio da voz da moça. No canto da sala, numa poltrona maior que as outras.

- Não pode, você só pode se inscrever com as três, você tem que fazer a composição correta.

eu não tenho uma terceira peça, quero inscrever somente duas. Insistia Enodo.

Ai chegou a censura final. A um palmo de sua venta a moça falou:

-Se você quiser tentar assim, corre o risco de não se classificar. A comissão julgadora pode não aprovar.

O volume de argumentos negativos deixava a sala sombria e uma parede de tijolos escuros substituía o oxigênio da sala. Não deu, era a hora de recolher a papelada e ir em boa hora. afinal de contas, tinha um anjo em casa esperando por ele.

serrão

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