quarta-feira, 24 de junho de 2009

QUE FAZER DE MARCEL DUCHAMP? por affonso romano de sant’anna
Há, pelo menos, duas maneiras de ver essa retrospectiva de Marcel Duchamp no Museu de Arte Moderna de São Paulo. A primeira é com o olhar de 1917. A segunda é com o olhar de 2008. Com o olhar de cem anos atrás ficaremos pasmos e/ou encantados que alguém tenha decretado o fim da arte transformando, paradoxalmente, qualquer objeto cotidiano em peça de museu. Com o olhar de hoje, de quem já atravessou os caminhos e descaminhos da história e da arte no século 20, exercita-se uma visão crítica que ensine a ver o ontem e questionar o agora.
Duchamp tem sido vítima de dois tipos de leitura: a primeira é uma leitura precária, superficial, repetitiva do que vem sendo dito há cem anos. Pura celebração, escrita de endosso, subserviente, intimidada diante da celebridade e da história. A rigor, é uma leitura anti-duchampiana. É´ o que se faz nos cursos de arte e nos manuais. O segundo tipo de leitura que vitimou Duchamp é a hiper interpretação. Aí situam-se grandes ensaístas, tanto Octávio Paz e sua alucinada interpretação do “Grande Vidro” ou Jean Clair que compara Marcel Duchamp a nada mais nada menos que Leonardo da Vinci.
Não seria já hora de fazemos uma revisão crítica da modernocontemporaneidade? Duchamp é peça fundamental neste processo. Contraditoriamente, o dessacralizador foi sacralizado e os que o seguem são paradoxalmente anti-duchampianos. Contudo, a melhor homenagem que se pode fazer a Duchamp é contestá-lo. Não gratuitamente, mas com argumentos e conceitos pertinentes.
O séc. 20 viveu às custas de três contribuições do sec. 19: o marxismo, a psicanálise, a arte moderna. O marxismo entrou em processo de revisão, a psicanálise está sendo reanalisada. Por que temer a revisão da arte moderna? Uma revisão, enfatizo, não com os olhos do sec. 19, mas do sec. 21.


A COISA AUSENTE

As pessoas que estão indo ver a retrospectiva de Duchamp no MAM devem estar sentindo uma certa estranheza. Além de não conseguirem conferir as obras expostas com as teorias e as expectativas que as precedem, estão indo ver uma coisa que não está lá. Existe um vazio, que se explica, porque na arte conceitual, o conceito é mais importante que a obra. Algumas obras são só o conceito. Por essa razão os objetos que lá estão, o urinol, a roda de bicicleta, o vidro pintado, não têm uma singularidade, podem ser substituídos, replicados por outros urinóis, rodas de bicicleta, etc.
Daí decorre que esse tipo de obra não é para ser “vista” mas para ser “pensada”. Portanto, insistir em “ver” tais obras não nos dará a chave do enigma. O enigma só será desvendado se pensarmos os conceitos geradores da obra. Não é à toa que, espertamente, Duchamp era contra a “arte retiniana” e fazia a apologia do ” homem cego”. Uma análise de tal arte deveria centrar-se nos conceitos que a originaram.
Mas surge, então, uma pergunta perturbadora: por que esses conceitos nunca foram examinados? Ou melhor: esses conceitos resistem a uma análise? Qual o campo para a análise da “arte conceitual”? Certamente não é a estética nem o campo artístico, até porque Duchamp ambiguamente negava a estética e a arte. Daí surge outra questão intrigante: se as teorias artísticas e estéticas não dão conta desses problemas, em que espaço eles devem ser enfrentados?
A resposta é: na área da filosofia, da linguística e da retórica. É até possível dizer que a arte conceitual é um ramo da literatura. No entanto, espantosamente, há cem anos que essas áreas ignoram as riquezas contraditórias das falácias duchampianas.
Trazendo, portanto, o problema para o campo que lhe é próprio, afirmo: Duchamp era um sofista. E os sofistas que prosperaram no sec. IV a.C. na Grécia, prosperaram também muito na modernocontemporaneidade. O sofista acredita poder demonstrar qualquer coisa com seu discurso. Pode dizer, como Zenão, que uma tartaruga corre mais que Aquiles ou, como Duchamp, que qualquer objeto é uma obra de arte. O sofista é um ilusionista da linguagem. Enfrentar o enigma duchampiano é desconstruir o ilusionismo retórico que ele criou. Como alertava Bachelard, há que enfrentar os “obstáculos verbais”. E Lacan, analisando o conto “A carta roubada” de Poe, dizia que a primeira façanha do ilusionista é nos transformar em personagem de sua ficção. Deste modo, os que estão indo ao MAM ver as obras de Duchamp correm o risco de simplesmente caírem numa armadilha verbal.
No meu próximo livro “O enigma vazio”, detenho-me pormenorizadamente sobre as idéias e falácias do discurso duchampiano, aprofundando questões levantadas em “Desconstruir Duchamp”. Aqui, rapidamente, lembro duas delas. A primeira falácia é sua definição de “arte”. Numa entrevista à BBC, em 1968, disse que “etimologicamente” a palavra “arte” significa “agir” e não “fazer”. Equívoco. Em sânscrito, no indo-europeu, no grego, no latim, por exemplo, arte está ligada a “fazer”, à “técnica”. Mas nosso Duchamp acha que pode inventar etimologias. Se dissesse que estava inventando, poderíamos dizer como os lusos- ” tem piada”. Mas, não disse. Se bastasse “agir” para ser artista qualquer pessoa andando na rua seria artista e os animais grandes virtuoses.

ARGUMENTAÇÃO EM DECLIVE

A retórica do frasista Duchamp pode ser desconstruída quando surpreendemos nela o que os lógicos chamam de “argumentação em declive”. Douglas Valton diz que ” o declive escorregadio é um tipo de argumento que começa quando somos levados a reconhecer que uma diferença entre duas coisas não é significativa. Depois disto, pode ser difícil negar que a mesma diferença, entre a segunda e a terceira, também não é significativa. Quando esse tipo de argumento começa, pode ser tarde demais para detê-lo: entramos no declive escorregadio”.
É isto que ocorreu com o urinol (”Fountain) apresentado como obra de arte, ou seja, quando o marchand Arensberg, a mando de Duchamp, argumentou junto à direção da exposição, em 1917, que se alguém mandasse cocô de cavalo como obra de arte, teriam que aceitar. Fazia sentido. Deu no que deu. Esta é uma tática sofista que consiste em encadear afirmações, ilógicas, inverossímeis, absurdas. Se o ouvinte não pára para conferir cada unidade e a des/unidade do conjunto, se verá prisioneiro num encadeamento sem poder achar a saída.
Duchamp exercitou o declive escorregadio quando explicando o “Grande vidro” (-essa obra não terminada e sobre a qual há anotações que os próprios biógrafos chamam de confusas e inexplicáveis), disse que aquela obra é um “atraso”. Mas como “atraso” é algo que ele não sabia como definir pois tem “diferentes sentidos”, aceitou a “totalidade deles”; e assim desembocamos naquilo que ele jubilosamente chama de “indecisão”. E a “indecisão” (ou relativismo) de seu discurso sofista é de tal ordem que ele explica que em vez de “atraso”, poderia dizer que o quadro é um “poema em prosa” ou uma “escarradeira de prata”. Então a obra é tudo e nada, e, sobretudo, uma coisa que não se sabe o que é­. Assim entende-se porque para ele “tão logo começamos a por nossos pensamento em palavras e frases sai tudo errado”.

Por que até hoje ninguém se dispôs a analisar tolices de certas frases duchampianas, que passam por sabedoria, como essa: “Pode alguém fazer obras que não sejam obras de ‘ arte’”? Claro que pode, e Duchamp é um exemplo. Por que não se analisa isto: ” a idéia de julgamento deveria desaparecer”. Ou esse outro disparate: “a palavra não tem a menor possibilidade de expressar alguma coisa”.
Em Duchamp há um problema central: o problema da linguagem. E não sairemos da aporia que ele criou enquanto não decifrarmos a linguagem do problema. Dentro da estratégia da indecisão, os recursos estilísticos usados por ele eram a homonia( palavras semelhantes com significados diferentes), a paronomásia (grafia e pronúncia semelhante e sentido diverso) e anfibologia (termos ambíguos, obscuros). Gostava de trocadilhos e chegou a colecionar centenas deles . Com isto construiu armadilhas verbais e conceituais que iludiram cautos e incautos. Desmontar essas armadilhas é desconstruir um mito. Como mentiroso paradigmático, ele ilustra o clássico “paradoxo do mentiroso”, pois quando o mentiroso diz que está falando a verdade, está mentindo ou não? O fato é que seus solipsismos levaram várias gerações a uma paralisia do pensamento, ao enigma vazio. Ele é o cultor do oxímoro paralisante, o avesso do oxímoro dialético este sim, produtor de conhecimento.
Ter dito ” sou totalmente um pseudo” serve para absolvê-lo? Ter dito “cada palavra que lhes digo é estúpida e falsa” o exime de responsabilidade? E o que dizer desta frase dramática escamoteada por seu adoradores: “Este século é um dos mais baixos na história da arte”. Não é ele responsável por isto?
Individuo sedutor, inteligência brilhante, ilusionista ardiloso, acabou por fazer com que outros tomassem como sendo lei universal, o que era seu modo de ver e de ser. Não se lhe pode negar o direito de ter feito o que fez, ter dito o que disse ou viver a vida que viveu. Isto tinha certo sentido em 1917. O que não se pode é mitificá-lo e deixar de analisar objetivamente sua obra e pensamentos ficando na deliquescente imitação ou fiel adoração.
No final da vida ele disse “os anos mudam e não poderia mais ser um iconoclasta”. Entrou então, ao lado de Calder, para o Instituto Nacional de Letras e Artes dos Estados Unidos. Assim o apóstata voltou ao seio da igreja. É´ como se alguém tivesse a vida inteira garantido aos seus seguidores que não existe céu nem inferno, e , no entanto, ao morrer, se despedisse cinicamente de sua grei dizendo, desculpem-me, me equivoquei, mas estou indo para o céu. Desculpem-me se infernizei a vida de vocês.

(03-8-08.)

sábado, 13 de junho de 2009

A revolução dos feios

"...A feiúra no sentido absoluto começou a se manifestar pela onipresença da feiúra acústica: os automóveis, a motos, as guitarras elétricas, os marmeletes, os auto falantes, as sirenes. A onipresença da feiúra visual não demoraria a aparecer." Milan Kundera

estádio machadão


Tem coisas que só Natal tem e tomara que Mossoró não copie. Em todo o Brasil, no mundo todo, o padrão estético televisivo é unânime, seguro numa convenção internacional, a convenção da beleza. É a cosmopolização estética do homo sapiens eletrônico.
A TV mudou o mundo, transformou, modificou, entortou, eletromagnetizou o homem(dizem que Cidade Nova :Petrópolis e Tirol) tem a maior concentração de doido por metro quadrado de Natal).

A TV fez o homem deixar de gostar de si para gostar do que é, ou do que foi. O personagem, o social, a fantasia. No mundo contemporâneo esse fetiche assumiu identidade, emancipou-se e subjulgou a psique.Talvez seja essa a explicação para o fenômeno que eu observo a anos e que só ocorre na cidade do Natal. Trata-se do fenômeno da feiúra na TV. Parece uma maldição. Ninguém escapa e mesmo quando bonito(a), com o tempo, fica feio(a). Você já repararam que na TV natalense, com raríssimas exceções, só figura gente feia. Em todo lugar do mundo, os apresentadores são belos, arquétipos da beleza, beleza buscada em todas as sociedades, em todas as épocas históricas. Pois é, em Natal isso não tem importância, não existe. Impera a feiura mesmo.
Nem na TV cabugi, seu padrão rede globo, essa regra se faz exceção. E a TV tropical, e a Ponta Negra, vige! A potengi nem se fala. E as TVs nanicas? Já estão aderindo a moda. Padre João Maria, Santa Clara. Tem um apresentador que seu cabelo parece uma peruca(pintada) , um capacete, nem ventania, nem copa do mundo cosegue derrubar aquele concreto armado. Ele usa sua feiura para mal.

Alguns, de tão feios, tornam-se vereadores. A muito tempo atrás (veja que o problema é estrutural) meu sobrinho de Brasília, assistindo o "patrulha policial" disse:

-que bicho feio da po##a!

Hômi, tirem esse povo feio da TV, please. Nós podemos.

Mas, como tudo tem uma banda boa, podemos tirar proveito dessa agremiação lítero-estética, recreativa e cultura da TV potiguar. Vou me acorrentar no machadão, e depois da demolição, bater umas fotos, fazer um book e procurar emprego em alguma emissora de TV.

serrão

domingo, 7 de junho de 2009

"Acho que não existe mais arte", disse Lévi-Strauss em entrevista ao "Mais!"

(http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u471632.shtml

trecho:

FOLHA Em Olhar, Escutar, Ler, o senhor escreveu que há momentos na história da arte em que a qualidade estética diminui quando crescem o saber e a habilidade técnica. É o que acontece hoje?LÉVI-STRAUSS Não. Quando escrevi isso, estava pensando na história da tapeçaria. A mais bela tapeçaria que conhecemos é a dos séculos em que o tapeceiro dispunha de número limitado de cores. Esse número de cores só aumentou nos séculos 18 e 19. Em vez de cem cores, hoje temos 10 mil ou 100 mil. A qualidade se enfraquece. O problema da arte moderna, ao menos nas artes plásticas, não é um enriquecimento dos meios técnicos, mas, ao contrário, um considerável empobrecimento. Isso é verdade para as artes plásticas, mas não para a música, que se torna cada vez mais erudita. Não gosto nem um pouco da música contemporânea, mas reconheço que ela é extremamente erudita.
FOLHA - Para que serve a crítica de arte hoje?LÉVI-STRAUSS - Desde sempre, o papel da crítica foi tanto traduzir, por meios literários, a emoção do espectador diante da obra, quanto tentar compreender justamente as razões e os mecanismos dessa emoção. O problema é que acho que hoje não existe mais arte. Há alguns modos de expressão, que continuamos chamando por nomes tradicionais - pintura, música, literatura -,mas creio que sejam outras coisas. Não são mais as mesmas artes.
FOLHA - O senhor escreveu que a grandeza de Poussin vem em parte do "segundo grau" - é um pintor que pinta de maquetes, por exemplo, e não diretamente da realidade. Não seria exatamente uma exacerbação desse "segundo grau", um esquecimento do real, o problema da arte hoje, com o pós-modernismo, a arte como "segundo grau" de si mesma?LÉVI-STRAUSS Você está misturando duas coisas: o fenômeno da criação de uma forma profunda, como em Poussin e outros; e o fenômeno epidérmico a que você faz referência. A grandeza de Poussin vem do fato de ele ser um gênio, e não de outra coisa. Mas isso não é suficiente para explicar a obra. É preciso saber como funcionam a obra e o gênio. O "segundo grau" permite compreender o modo pelo qual ele trabalha e o tipo de emoção que sentimos diante de seus quadros. Diante de uma tela de Poussin, temos a impressão de estarmos na frente de um pequeno teatro. Essa impressão vem de como o quadro é composto. Mas não basta isso para fazer um grande quadro.
FOLHA - O senhor define a arte moderna não-figurativa como um naufrágio. Por que a questão do realismo e da verossimilhanç a lhe interessa tanto?LÉVI-STRAUSS O mundo é de tal riqueza, e estamos tão longe de esgotar todas essas virtualidades, que me parece ingênuo querer criar fora disso. Quando vejo um quadro não-figurativo, penso que é sempre menos belo que o espetáculo não-figurativo que me oferece a natureza, na forma de um cristal, um jogo de luz etc.
FOLHA - O senhor trata também da representação do sobrenatural em Poussin. Aonde foi parar o sobrenatural na arte contemporânea? O senhor acha que a representação do sobrenatural ainda existe na arte?LÉVI-STRAUSS Quando falei do sobrenatural em Poussin, estava me referindo a suas paisagens. Uma paisagem de Poussin não se parece com as de [pintores impressionistas franceses como] Pisarroou Sisley. É uma paisagem monumental, que é mais bela do que qualquer paisagem real que possamos observar.
FOLHA - Mas o senhor analisa a representação da morte e do sobrenatural em Poussin também, com a imagem do crânio, por exemplo. Hoje, a arte abstrata não poderia ser a representação desse sobrenatural, do invisível, no mundo contemporâneo?LÉVI-STRAUSS - Deixo essa questão aos amantes da arte abstrata.
FOLHA - Por que o senhor despreza a fotografia?LÉVI-STRAUSS - Digamos que isso vem de uma pequena exasperação diante da espécie de veneração da fotografia que vimos aparecer há alguns anos. Fiz milhares de fotografias ao longo de minha vida. Algumas são bastante belas. Mas não se deve exagerar. A mais bela fotografia não existirá jamais diante de um belo quadro. Esse meu desprezo foi mais um movimento de mau humor.
FOLHA - O senhor está trabalhando num livro de fotografia sobre o Brasil.LÉVI-STRAUSS Trabalhando é exagero. Quero selecionar de 3 mil negativos que fiz durante minha estada no Brasil cerca de 200 ou 300 fotos e publicá-las de maneira mais apresentável do que em Tristes Trópicos. São fotos de expedição e muitas da cidade de São Paulo, que não consigo mais situar. [A antropóloga] Manuela Carneiro da Cunha teve a gentileza de me trazer mapas de São Paulo da época para que eu consiga localizar onde as fotos foram feitas. É muito difícil. Temo que essas imagens tenham perdido o interesse. Não consigo dar início ao trabalho. Elas me chateiam.
FOLHA - O senhor acredita que todas as artes podem ser interpretadas pelo estruturalismo, pela linguagem- que toda arte é linguagem?LÉVI-STRAUSS Em todas as artes, há autores e obras que se prestam melhor a uma análise estruturalista e outros que são, digamos,mais rebeldes. Se me pedissem para fazer uma análise estrutural de Em Busca do Tempo Perdido [o romance de Marcel Proust], acho que me veria em maus lençóis. Não digo que seja impossível, mas seria uma tarefa imensa.
FOLHA - Numa entrevista recente a CatherineClément,7 o senhor disse que todos os autores de verdade, em arte, são estruturalistas.LÉVI-STRAUSS Não me lembro de ter dito isso. Creio que uma das formas de interpretar e compreender a criação artística é abordá-la pelo ângulo estruturalista. Mas não me lembro de ter dito que todos os verdadeiros autores são estruturalistas. Você me desculpe eu lhe dizer isto, mas, quando dou uma entrevista, respondo qualquer coisa [risos].

quarta-feira, 6 de maio de 2009

uma pintura de helmut

A temática de Helmut era sempre paisagens como essa. Nunca pintava bonecos (figura humana). Helmut só pintava paisagens imaginárias. Repertório interminável que ele guardava dentro, nas profundezas de sua alma. Talvez um mundo passado. Uma vida passada.

giz de cera sobre cartão. 50cm x 35cm.


domingo, 3 de maio de 2009

(em memória de josé helmut cândido)



sem luz

Abusei da autoridade encontradiça

na cidade e perdida lá nos campos!


Mesmo até os pirilampos

perderam o brilho do olhar!


Cegos ficaram

e pelos campos

foram-se para não mais voltar.
helmut cândido
"gestalt: teoria segundo a qual, a visão do glôbo ocular forma uma idéia de uma imagem qualquer, que não confere com a margem vista no exterior. introduzida a cerca de 30 anos dentro da psicologia hodierna. o percebedor quarda subjetivamente o que vê lá fora".
José Helmut Cândido

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Em memória de Aroldo Martins. (vulgo caninha)

o clarão e a sombra

Zuza desasna beócios e os lorpas instigantes são castigados por um decurião de maus bofes, caso promovam azáfama e balbúrdia nas salas de aula.Gothardo Neto, filho do professor, instrui-se no castiço vernáculo, onde a pureza e a forma lingüística são a busca maior da perfeição poética. O soneto em alexandrinos o atrai. As belas morenas o inspiram. Um amor proibido o consome. Sorumbático, sai à noite, com seu sari indiano, entre as veredas dos aningais que ladeiam o Tissuru, e para além da Cruz da Bica descamba para a Salgadeira, lugar de tugúrios, mansarda, botecos pobres, onde, entre tragos, sacia sua desdita. É também Zé Fidélis, o poeta das sombras. Viram-no para os lados da nossa última tatajubeira – divisa entre Ribeira e Rocas – de fraque azul desbotado, botas rotas, chapéu fora de moda, chapinhando em poças de lama, uma corda de caranguejos entre os dedos. É Ferreira Itajubá, Azinho. Vem dos pastoris, das lapinhas, dos fandangos. E seu violão é coberto com folhas-de-fladres. Feito de luz, o poeta é a festa maior da cidade. São suas as alvadias dunas. São seus os cajueiros e javaris solitários. Nessa noite, Azinho está insone e com sede. Quem sabe, nas barracas da Feira do Salgado – futura estação ferroviária – não haverá um caritó aceso e um bom copo de aguardente?- Não tenho nenhuma bebida – disse o bodegueiro.- Bote água na garrafa, fica o gosto – redargüiu Itajubá.- Não dá mais, poeta: Gothardo Neto passou aqui e já bebeu a lavagem...

Aningal

Aroldo Martins

Prosa do Beco de Aroldo Martins"

Natal é um vale branco entre coqueirosLogo que desce a luz das alvoradasVai Barra afora as velas das jangadasCessam no rio as trovas dos barqueiros"Ferreira Itajubá"

O poeta nasceu no Beco, ruela por detrás da Vila Odila, vizinha da Vila Cremilde. Água de beber a um pulo da Cruz da Bica, dois pinotes do Tissuru, tudo tão de perto, fácil alcance. Dealbar dos dias de ontem, pisara a lama primeva, atravessando a Praça da Alegria e indo para a Rua Grande em busca do lirismo dos quintais pobres.Beco da Tatajuba, Beco do Engole, Beco do Buscapé, Beco da Lama. O resto é o mundo ingrato, sáfaro, hostil, mundão de ruas esquisitas, de perigosas avenidas. O rei dos becos é o Beco da Lama, centro nervoso e geográfico desde o começo das primeiras habitações.Depois do Beco, a pequena Igreja Matriz derreada ante a mágica visão do Potengi com suas catraias e seus barcos de mastros gurupés. A colina é a cidade e seus limites não vão além da Igreja do Rosário, cujo baldrame repousa nos ossos dos pretos escravos; e a Igreja do Galo, sentinela muda a resguardar apenas o sossego das moitas.No Cantão das Gameleiras, os barnabés conversam os últimos assuntos do Império de Dom João. Será depois a Praça da Alegria, a dez passos do Beco, atual Praça Padre João Maria.A sagrada jumenta do padre fez xixi no Beco da Lama, batismo muar abençoado saecula saeculorum. Pixinguinha pisou no Beco seresteiro e este ficou melódico, chorão, cada vez mais carinhoso.No Royal Cinema, fins do Beco, a sessão só começa quando DonAna Cascudo chega.Tal qual muçulmano que visite Meca uma vez na vida, todo natalense deve ir ao Beco libertário, Beco pai das ruas do mundo todo.No Beco da Quarentena não tem lama, mas no Beco da Lama ninguém fica quarenta dias sem vê-lo, atravessá-lo, atraído por sua estreiteza, espremido que é entre calçadas e platimbandas.Becodalamenses: para todos, a Jitanjáfora favorita do Príncipe do Tirol: Larin! Toré! Babá!


Madama Baticum de Aroldo Martins


Tontas iaiás balouçam os corpos revoltosos num rendilhado de saias alvoroçadas, multicoloridas, num ritmo de tantãs atordoando os enfeitiçados.
Os atabaques percutem em estonteante pulsação, mesmerizando as iaôs dançarinas - algumas, manifestadas, desatando a rir em achaques e tremeliques - ululando ao léu, noivas de uma lua em sombrio e tenebroso minguante.
Um mão-de-faca acende bugias. O terreiro reluz na penumbra num bruxuleio misterioso de flamas dispersas, entre sombras escondidas.
Longe, doce e harmoniosa corimba é entoada, enquanto atravessas com mavioso canto o espesso negrume dos incensos, os olhos estranhamente luzidios fulgurando na meia escuridão.
Albina, gema do Areal, dona de perfumadas noites de macumba, rainha dos encantados hotentotes, maga da indiara cabocla, é bem-vinda mãe.
Senhora dos seres dos mares, conselheira da mãe-d’água, tu que abafas o silvo da pérfida caninana, livra-nos da besta-fera, afasta-nos dos hodiernos miasmas da Ribeira.
Se, num teu pesadelo, ao vislumbrares, em soturna noite de trovoadas no Refoles, um vulto chagado cavalgando uma mula-sem-cabeç a e que, em disparada, uiva, paralisando as ostras, gorando as ninhadas dos pequeninos maçaricos, manda-o de volta para a aldeia, mãe: aquele é o calunga de Zé Pretinho, nosso primeiro enforcado oficial.
Mas, se em tua mansuetude dormitas entre nuvens e em lindos sonhos avistares um caboclo velho soprar volutas de um boró, provocando o panapaná das borboletas; colher a dália e; espantar a osga cantarolando a música do primitivo gentio, traze-o, mãe, faz ogã de mim, cambone teu, e desce, Albina, baixa nesse povo que te ama aquele que mexeu com catimbó; aquele que tudo sabe, faz e acontece, esse buliçoso e serelepe Zé Pilintra de marca maior: o encosto de Cascudo.


PÂNDEGA TANTÃ de Aroldo Martins

Zé do Rojão arregalava os olhos remelentos do excesso da luz dos dias e das noitadas de pandeiro e traquinagens, aluado de si, sem saber ao certo onde dormira nem ter porventura uma lembrança nítida do beréu que se metera. No bolso, um trocado que mal dava para pagar o pernoite e, mais ali adiante, um gargarejo demorado em meio copo de cachaça para ajudar a tirar o bafo e limpar garganta afora goela dentro, enganando assim a fome e o cansaço enquanto ficava zonzo e renovado na alegria dos truques e das mutretas que o paletó escondia, que a voz fraca imitava, que o corpo mole fazia.Mais uma e dê cá outras, no entremeio da bicada paga aqui pelo estudante ou de uma saideira oferecida lá pelo distinto do canto, o recinto já bem animado na prosa com zinebra e tira-gosto de papel, o saltimbanco dos becos, o temido imoral das donzelas caprichava nas piadas gordamente apimentadas de enxerimentos e más intenções, um dengo acanalhado no começo e outro pior no fim, o senhor dos gracejos se esmerando em gaiatas contorções de escarninho, um rubor indiscreto atingindo velhos, moças e sinhás, o Baixo-Calão expulso do ambiente, recolhendo maus augúrios e reprovações dos presentes, se despedindo descaradamente com a mais gaiteira voz saída das trôpegas e bêbadas cordas vocais: Prazer que me já dão! Até outra!

Aroldo Martins


terça-feira, 21 de abril de 2009

QUE PAPO É ESSE?

do livro (a publicar) "que papo é esse" de Maurílio Eugênio.

(Página 85)



O termo “maluco” e seus derivados, “maluquês”, “malucada”..., não foi Raul (Seixas) quem inventou; ele, certamente, o adotou e usou apropriadamente em sua canção Maluco Beleza; ele próprio um maluco na aparência, em sua arte, nas declarações públicas, no raciocínio ideológico, no sentido de contestar os valores falidos, fodidos; de questionar o sagrado e o profano. Foi um dos artistas que mais autenticamente simbolizou o Movimento.

O termo, dizíamos, foi a palavra com que os Ripes brasileiros se codinominaram entre si, e se disseminou no meio deles, passando a auto intitular-se “malucos”.

Os outros é que os chamavam de Ripes. Não eles a si próprios, tampouco uns aos outros. Agora, como o Nordeste é por demais rico de cultura popular, pitoresco, em muitas cidades do interior, notadamente as do Ceará, Piauí e Maranhão, os Ripes tinham a denominação de “andarinos”, a qual, suponhamos, é uma derivação de “andarilho”, terminologia esta, fartamente mencionada no cancioneiro dos poetas e romanceiros, tanto na literatura escrita quanto na oral, em todas as épocas.

Andarilhos eram os próprios apóstolos de Jesus.



Pois bem, falávamos sobre o termo “maluco”. Acontece que maluco foi o que eles, “malandramente”, encontraram como forma de amainar um pouco a fúria homicida dos militares sobre os Ripes, em certo período ‘brabo’ [bárbaro, bravo?] da ditadura militar. A barra era tão pesada, a pressão tão esmagadora - eu mesmo fui preso dezoito vezes. Todos os presos políticos (ou quase todos) tiveram suas prisões, perdas materiais, tortura psicológica e física - eu nunca fui torturado fisicamente, é meu dever salientar - reparadas. Todavia, sofri tortura psicológica. Teríamos algum direito?



Como dizia, a rapaziada, se autodenominando ‘malucos’, passava (para os “home”) uma idéia quixotesca/chaplini ana de si próprios..

Assim ficavam, digamos, inferiorizados. Nesta perspectiva, seriam “uns malucos” e fim. E os “milicos” (militares fascistas) se sentiam, pois ‘superiores’, enfim. Então, partiu-se para a “maluquês”. Daí: maluco-beleza. Foi uma ‘antiarma’; uma ‘sacação’ genial, natural, visceral, lúdica.



Mas não os deixaram em paz.

Existiam incontáveis delegados de polícia em cidades do interior e também nas capitais, que queriam ‘mostrar serviço’ aos militares por motivo de promoções e/ou regalias; aí, os Ripes eram ‘prato cheio’, já que era um regime de exceção e os direitos humanos, e a liberdade individual tinham, simplesmente, ido para as “cucuias”. Detinham-nos pelo que é oficializado como ‘vadiagem’. Aí, ficávamos um dia - às vezes alguns dias - em cana. Depois eles viam que não era nada daquilo que pensavam que a gente fosse. Então soltavam-nos, não antes sem alguns conselhos, alguma admoestação. Muitas vezes, ameaças de porrada mesmo.

Comigo não aconteceu, mas muitos camaradas chegaram a apanhar. Tinham as cabeças raspadas. . .

Em algumas cidades do interior eram detidos pela polícia quando portavam drogas, na quase totalidade dos casos, maconha. Porque um verdadeiro Ripe não gostava de cocaína ou outra droga química no sentido de “fissura”; não a comprava, não a procurava. Experimentava- a quando, em alguma oportunidade, ela pintava espontaneamente. Quando alguém, circunstancialmente , em um ambiente, em uma festa, em um evento, a apresentava. Quando ‘pintava’, em suma. A maconha era considerada uma erva natural, uma planta que provocava êxtase e relaxamento; ficava-se mais próximo da natureza; ficava-se em resumo, ao natural.

Talvez o efeito da canábis (ou das drogas “naturais“ em geral), a sua “lombra”, o seu barato, nada mais seja do que uma referência no inconsciente do homem que remonta ao mito do paraíso perdido. De como o homem era, em sua essência, concêntrico, dono de uma alma pura, sem egocentrismo, pois algumas drogas – é cientificamente comprovado - extravasam incursões ao próprio interior, exacerbam a capacidade de amar, intensificam uma espécie de clarividência interior, chegando até mesmo a produzir mirações de espíritos....

É o caso das drogas alucinógenas. Essas tinham uma conotação quase divina. Eram degraus, portas para a espiritualidade, para o transcendental. Usadas em momento especiais e ritualísticos. Muitos são os exemplos acontecidos na estrada com malucos que não estavam devidamente preparados, por exemplo, para o chá do Cogumelo do Boi Zebu, e faziam verdadeiras “bad trips”, ou seja, más viagens, que a gente chamava, em nosso “nordestinês” de “viajem tronxa”, o que era, simplesmente, horrível. O chá e o LSD foram as drogas alucinógenas mais usadas pelos malucos, ambas a possuir o princípio ativo cientificamente chamado psilocybin. A diferença é que o Ácido é químico, o cogumelo, natura.

Veremos ao final destes escritos mais detalhes sobre o assunto.

Eu, particularmente, tive uma experiência fascinante sob o efeito do cogumelo, consumido assim, ao natural, no campo, ocasião em que conversei com um pé de jenipapo (!?!).

Quem conhece um “jenipapeiro” sabe que o mesmo tem o tronco todo manchado e essas manchas têm muitas vezes formas definidas. Pois o pé de jenipapo em questão, o que estava diante de mim durante a “viagem” adquiriu como que um rosto humano e falou comigo.

(. . .) Não, não foi uma alucinação, vocês devem estar pensando (. . .) Está bem, foi uma alucinação, sim. Mas uma alucinação real. Só sei que a árvore me disse coisas que até hoje me servem de lição. E isso há mais de 30 anos. Era a voz do meu inconsciente.

Esse acontecimento estará resenhado em uma seqüência no livro Memórias da Estrada (e Outras Memórias), relato já quase totalmente escrito e que contará minha experiência pessoal como um hippie.