quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Cidade que vivia do passado


De repente se deu conta que no céu da Cidade não corria aviões. Helicópteros, outros artefatos modernos não existiam em sua paisagem. Porém, podia sentir o cheiro fresco da argamassa que fazia centenas de novos prédios. E embora a modernidade já insinuada em suas ruas, tinha sensação de estar caminhando sobre uma bela paisagem. Podia sentir o cheiro do mar.



Inácio de Boiota era um grande artista de renome internacional. Paulista tinha conquistado o mundo. No seu currículo, nada menos que várias exposições no circuito obrigatório das artes contemporâneas: Fez a Kusthalle de Bâle, os museus de Grenoble e Chicago, o Beaubourg, o MOCA de Loa Angeles.




Sua obra: “o espirro do catarro” faz parte da Ludwing Collection.




Boiota é amigo de Téo Babelli (um megainvestidor) e teve um caso com a ex namorada do pintor Jackson Mollock. Apesar de todo esse currículo, estava enfadado de Nova York e gostou de uma cidade que viu através de um folder de promoção turística.




Estava em tempo de se aposentar. Curtir o resto de sua vida, gastar os milhões de dólares que tinha acumulado vendendo bandas de tijolos, esculturas de fumaça, telas em branco, etc...




Boiota desembarcou na Cidade para fazer uma revolução nas artes. Logo de início foi um paparico só. Não se falava em outra coisa. O único jornal da cidade, a tribuna da notícia, publicava na capa e no seu suplemento de cultura o “Tudo” infinitas matérias sobre Inácio de Boiota.




Mas isso foi só no começo. Passado alguns meses, tudo voltou à normalidade. Ele compreendeu bem, achou até exagerado aquele paparico todo. Pensou em conhecer os artistas do novo lugar.
Logo notou que não tinha artistas ali, pelo menos nas páginas das revistas e jornais, nunca leu. Vez por outra, um, ou outro acidente, aparecia.




Nos cadernos de cultura da Cidade, só se falava no passado. Eram matérias sobre a primeira ponte, o primeiro cinema, a primeira rapariga, o primeiro cabaré, o primeiro aviador. Era uma cidade que vivia do passado.




As revistas também seguiam a mesma regra editorial. Os suplementos oficiais, também. Até as publicações independentes, dos poetas, só falavam no passado. E até os muito poucos, ditos de vanguarda, também, só falavam do passado.




As revistas especializadas, de gastronomia, por exemplo, só falavam dos restaurantes do passado e dos pratos tradicionais.




Na Cidade, o presente não existia.




Soube que a cidade era berço de um grande folclorista, historiador e poeta brasileiro. Seria isso a causa de tamanha insanidade? Assim sendo, Era uma coisa sem volta.




“Onde eu fui me meter”, pensou Inácio. “Essa cidade morreu no tempo, não tem presente, portanto não tem futuro. E no futuro, não vai ter nem passado”. Ele deu um suspiro forte, puxou o ar com toda a força de seus pulmões sexagenários, viu que valia a pena uma última tentativa, ar como aquele nem o de Paris que costumava engarrafar e vender em suas exposições. Foi à luta, denovo.




Na Cidade tinha nove Shopping Center, e somente um jornal. Todo mundo era poeta, jornalista e historiador, mas nenhum museu de artes plásticas existia, nem de arte nenhuma, aliás, nem museu tinha.




Na cidade não podia fumar, nem sentar nas calçadas e nem falar dos artistas do momento.
Inácio começou a circular nos bares, na vida noturna, na underground em busca de artistas, que num contexto deste só poderiam estar marginalizados. Não encontrou nada. Chegou a conclusão que não tinha arte ali naquela cidade.




Milhares, centenas de folders, cartazes, panfletos chegavam até a mão de Inácio. Quando ia aos eventos, voltava puto com que via. Era a cidade do passado e do cartaz. “O que mais falta eu descobrir?”




Logo, o pesadelo de um mundo sem arte começou a habitar a casa de Boiota. Sua paranoia galopava galopes de um mustang, deixou de ver o noticiário da TV, os blogs da internet, tudo lembrava a Cidade do passado. O mundo sem arte. Ele acabou esquecendo quem era, o que foi. A última vez que foi visto, estava sobre uma jangada, lançando uma tarrafa na areia.




serrão

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O cantor das multidões

Enquanto Toni Alves olhava fixamente a mesa lustrosa, seus olhos não acreditavam no que acabara de testemunhar. O óleo de suas mãos, o suor frio que descia por entre seus dedos, deixava uma marca no brilho. Ele viu o silêncio na sala, a mancha na mesa e pensou: Era hora de partir. Sua cabeça baixa o conduziu até a saída. Seria a sua última vez numa sala de uma grande gravadora multinacional.

Toni Alves foi um dos maiores artistas de sua geração. Cantor, compositor, músico, poeta. Aprendeu a tocar violão aos dez anos. Seu pai era uma estrela do grupo vocal: Os Potiguaras. Desde cedo vivia no universo das serestas e do rádio. Ouvia música o dia inteiro e sua voz, quando adulto, parecia a voz de um trovão. Uma voz nunca ouvida antes no Brasil. Com todo esse arsenal, foi o rei do swing, do funk, do soul. Foi o criador do “Forró Jazz“. Uma estrela. Como poucas.

Só depois que desceu as escadas foi que Toni Alves ergueu a cabeça. Sentiu um pouco de estima. Tinha certeza do seu talento, “que se danem todos. Vou criar meu próprio selo independente. Vou gravar meus próprios discos”.Pensava. Caminhou apressadamente, como quem acabou de descobrir a pólvora, abriu a porta do seu Galaxie preto e acelerou Rumo à farra. Mulheres, whisky, pó e , só para não perder o hábito, cannabis.

Toni cheirava, fumava e bebia como um camelo. Era uma noite feliz. Saiu da boate, entregou a chave do carro para as meninas, sentou no banco de trás para apertar um baseado e disse:

-Pé na tábua meninas, até o gás acabar.

Apesar da farra ele não esquecia o marqueteiro, vez ou outra, como num flash beck, a cena surgia em sua mente.

Em frente à mesa de madeira, caprichosamente engraxada com lustra móveis, o diretor da gravadora RRS revelava que a verba para seu disco estava toda aplicada, logo, não seria possível dinheiro para os shows de divulgação do disco. Toni soube ainda que haviam contratado um marqueteiro. Um bicho estranho naquele tempo. Quando Toni soube que o marqueteiro era o responsável pela divulgação do disco e que gastaria todo dinheiro dos shows de divulgação pagando jabá , ficou uma fera. Magro, alto, elegante, lembrava Henry Fonda, partiu para cima do diretor artístico da RRS e foi firme: “ou fica eu, ou fica ele.”

E ficou ele.

Um dos maiores artistas de sua geração, a voz do Brasil. Um dos maiores recordistas de vendas de discos, o homem que sustentava, que pagava os salários de toda a equipe da gravadora, fora trocado por um marqueteiro, um embusteiro, um vendedor de farsa. Era o fim.

O Disco independente de Toni foi um fracasso. Sem o plano de vendas oferecido pelas gravadoras, Toni teve que vender seus discos de mão em mão, em shows, em feiras e evento que participava. A relação tempo, capital, transporte. Tornou seu empreendimento inviável. Seu selo faliu.

O tempo passou e seu nome foi atropelado pelos novos sucessos que a mídia fabricava. Os novos talentos se misturavam a novos embustes e a confusão tomou conta da MPB. A vida Ficava cada vez mais difícil para Toni.

Contratos para shows faltavam, seu preço se desvalorizava a cada ano. Sem gravadora, não acontecia. E além do mais, não era mais jovem. E pra completar, a moda agora era trocar os belos cantores com pinta de italianos por bundas com shorts, cada vez mais cavados. Depois de um tempo, biquínis e o torturante fio dental assumiram de vez a capa dos discos. O som foi substituído pela imagem pornográfica.

Toni empurrou a cara na cachaça, torrava toda sua grana com drogas e mulheres que muitas vezes eram pagas apenas para levá-lo bêbado para o hotel. Começou a vender seus imóveis, logo não tinha mais onde morar. Conseguiu um quartinho nos fundos da casa de sua mãe, voltou para sua cidade de origem, ali, pelo menos, ainda era uma lenda, e sua desgraça seria compartilhada com platéia.

As pessoas do bairro não acreditavam no que viam, aquela carne bêbada era Toni Alves?

O álcool mais imperador do que nunca castigava seu corpo. Feridas, pés inchados indicavam que seus órgãos não mais funcionavam direito. Sua imagem era um mau exemplo para os jovens.

Luizinho que tocava vilão como ninguém, resolveu se matricular numa escola técnica, agora queria ser engenheiro. Jacinto, outro jovem talento, já tocava na noite em barzinhos e baladas na cidade, abandonou sua carreira e foi trabalhar no posto de gasolina do tio.

O marqueteiro, havia tempo que estava na miséria também. Tentou todo tipo de embuste cultural. Mas até para isso tava difícil. Artista tinha virado um bicho em extinção. Até as bundas cantantes não cativavam mais. Os truques midiáticos estavam todos esgotados, fabricar um sucesso, uma novidade, ficou quase impossível. Quando pensou em inovar, produzir uma boa música, não existiam mais músicos. Quando quis produzir um cantor de verdade, já não existiam mais cantores ou cantoras disponíveis na praça. Tudo que fazia de novo,parecia algo visto antes, em algum filme, ou comercial publicitário. Jornais e agências de publicidades quase não existiam. Ficou difícil trabalhar a arte, num mundo sem arte.
Se no Brasil tava ruim, imaginem em Natal.

Há três anos que Natal não ouvia um show de música, há dez anos não tinha uma exposição de artes plásticas, e até alçamento de livro de poesia fazia meses que ninguém ouvia falar.

A tribuna da Notícia era o único jornal da cidade. Na primeira página, um chapéu dizia: evento. Embaixo o título, uma frase noiva e a foto de capa inteira:

“Inauguração hoje do Dunas Moveis North Shopping, o maior da América Latina”

No canto, no final da página, do lado direito da folha, uma notinha: morre o grande cantor potiguar Toni Alves.

Franklin serrão

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

o dia em que a pedra chorou


Os cliques falavam sozinho naquele silêncio do Potengi. A pedra do Rosário era a única testemunha ali. Mas o poeta perdeu o controle diante de tanta beleza. Começou a recitar sua poesia em alto e bom som.

Arte nunca foi receita. Pensou o poeta. E recitou mais alto ainda. Como deve fazer os poetas. Era cedo, e o barulho acabou acordando os bandidos da sua memória. Lembrou-se como tudo começou:

-Valeu a pena. Tudo graças a minha mãe. Pensava o poeta.

Eram apenas 10 degraus da escada para vencer. Alguns metros de solo e lá estava a mesa de Edgar Allan Pôla. A senhora chegou até a mesa negra, pois a mão direita nela, como que se apoiando, disse:

- O senhor tem que me ajudar.

Edgar Allan Pôla era o presidente da associação dos artistas plásticos de Natal. Um ativista cultural. Cuidava de poesia, também. A associação ficava locada no primeiro andar, em prédio histórico. Sua vizinhança era formada por um bar, quase um prolongamento da associação. Era para esticar o expediente da moçada. Poetas, músicos, escritores e artistas plásticos.

Aquela tarde foi atípica, e a visita inusitada. Acostumado a rotina de artistas, produtores culturais, gente do governo. Não se lembrava de algo semelhante.

-O senhor tem que ajudar. Insistia a senhora.

Depois de vencer os duros degraus da escada, não conseguia expressar outra frase.

Allan Pôla conhecia quase todos os artistas de Natal. Não imaginava ele que em breve conheceria um dos mais fantásticos de todos. A senhora era sua mãe, e seria, em pouco tempo, a ligação entre esses dois universos inquietos. Allan Pôla e o poeta ensandecido.

-Meu filho vem me dando muito trabalho seu Allan Pôla. Ele não quer mais estudar, não trabalha, nada consegue animá-lo. Esta me dando muito trabalho. Anda repetindo pelos quatro cantos da casa que é poeta. Então eu vim aqui. quero que o Sr cuide dele. trago ele amanhã.

E ela levou o poeta.

O encontrou selou uma amizade de Vinte e cinco anos entre Allan Pôla e o poeta ensandecido. Que tornou-se um poeta mesmo. Poeta das cores, das idéias. Acima de tudo, inquieto.

Recentemente interessou-se por fotografia. Resolveu dar um apoio a outra entidade artística cultural. Essa, de fotógrafos.

Convidou Allan Pôla, discutiram uma das mais bonitas paisagens da cidade. Resolveram levar a turma da associação de fotógrafos para lá.


Os versos do poeta acordaram mais do que peixes, memórias e caranguejos. Os bandidos mirins da favela ribeirinha, que dormiam naquele momento. Foram se certificar que barulho era aquele.

O final da aula de campo foi triste. Os bandidos mirins (que no Brasil são protegidos pela Lei) roubaram os equipamentos fotográficos dos alunos e fugiram favela adentro.

O rio ficou triste, a ponte sozinha, a pedra do rosário tentou pedir desculpas, mas nada aconteceu além do impune. Horas depois, tudo voltou ao normal. Nenhum rastro no local. Somente alguns funcionários da prefeitura, devidamente uniformizados, executavam o velho proselitismo na comunidade. Estavam chumbando um Moloq.

serrão

A insustentável leveza do cigarro


A pele de Edgar fedia muito naquela manhã. Ao cheirar seu braço, percebeu o suor. Todo seu corpo transpirava uma catinga insuportável de bicho morto. Ao limpar a remela do olho, viu suas unhas amareladas. Quando escovou a boca, viu que não tinha mais dentes brancos. Era a nicotina das três carteiras de cigarro que ele fumava, todo dia.

Edgar era um fumante compulsivo. Vivia sozinho fazia algum tempo. Apesar de uma boa plateia de apartamentos, terrenos e discos de vinil do chiclete com banana, não tinha muitos amigos para compartilhar suas glórias. O cigarro era uma companhia.

Todo mundo precisa de exibição, de plateia. E algumas pessoas, buscam esse público através do dinheiro. Acumulam e compram imóveis, planos de saúde, máscaras contra gripe. Essas indumentárias são suas plateias . Outras pessoas necessitam de menor público, ou de um único público, sua companheira ou companheiro, filhos, família. Assim como a criança que se amostra para os adultos, o adulto tem que se amostrar para algo. Todo mundo precisa ser amostrado. O ser humano é antes de tudo um amostrado.

Aquela manhã foi decisiva para Edgar. Ele percebeu que estava apodrecendo. Que o fumo tinha levado embora seu ânimo e seus nervos. Resolveu parar de fumar.

É verdade que ele já tinha tentado antes, parar de fumar. Algumas vezes usou: Acupuntura, adesivos de nicotina, ioga, supositórios, exercícios físicos. Sem sucessos. Toda tentativa de Edgar, contra o cigarro, só atrapalhava o seu prazer de fumar.

Mas, dessa vez seria diferente. Era a razão que agora falava por Edgar. Ia lutar contra seu próprio corpo. E assim fez. Parou de fumar.

O primeiro passo para parar de fumar é para de comprar. O segundo é cultivar um bom público de amigos. Para de fumar é mudar de vida. Não é fácil, mas também, impossível não é.

Edgar arranjou logo uma namorada. Andava pra cima e para baixo contando vantagens. Confessava a todos que seu desempenho sexual aumentara. Como ele mesmo gostava de dizer:

-depois que parei de fumar, ando transando pra caramba!

Magnólia era gaúcha. Uma morena de olhos azuis que Edgar conheceu no Carnatal. Depois de um ano de perseguição, a moça parecia ceder, mais pelo cansaço do que por qualquer outra coisa.

O que Magnólia tinha de bonita, tinha de burra. Só falava:

- Sei lá. Entende? Mil coisas.

Qualquer assunto, quando alguém perguntava a opinião de Magnólia, logo vinha aquele sotaque típico:

- Sei lá. Entende? Mil coisas.

Numa tarde de sábado, Edgar estava feliz da vida. Tinha vencido o cigarro. Pra mais de dois anos não fumava. E a dois anos se dava bem com sua gaúcha. Bebia e sorria fácil. Numa mesa de amigos, contava piadas, lorotas, mentia que nem um político. Foi numa dessas, depois de uma porrada de cervejas que ele pediu um brinde e disse:

-depois que parei de fumar, andoando transando pra caramba!

Surpreendeu a todos. Sua retórica eufórica, repentina, roubou a atenção de todo mundo. Todos na mesa ficaram surpresos com sua preciosa informação. Eu falei, todo(a)s.

serrão

domingo, 16 de agosto de 2009

A festa de Richards



Tudo estava preparado e seria uma festa. Richards ligou para uma centena de amigos, arrastou os móveis da sala, e no grande circulo que se formou, colocou um pedestal com sua mais nova mobília: Uma banda de tijolo.

Richards era um homem folgado do bolso. Vivia de seus imóveis e de um cargo de chefia no senado federal. Presente de tio deputado. Bebia pouco. Sua principal diversão era viajar. Era um careta que gostava de viajar para lugares caretas.

Seus amigos eram caretas também. Tinham corpos sarados como dos pedreiros, usavam tatuagem, piercing e cabelos assanhados como dos mendigos. Só não tinham o tal emprego em Brasília.

Os primeiros começaram a chegar religiosamente as 19 horas. Da zona sul da cidade vinham os Medeiros. Da cidade alta vinha uma loura alta, lembrava uma gaúcha, e seu marido, um baixinho dono de construtora. Serrão e Sandrinha foram os únicos que chegaram de ônibus. Uma cara de cansados, de quem enfrentou uma maratona. O whisky era farto, Johnnie Walker 12 anos.

Em Natal é raro um evento social como aquele de Richards. Praticamente não existe colecionadores, com exceção de Plínio Sanderson, Júnio Offset, MarcoBoi e Jácio do sebo. Fora esses, quase não existem.

Richads nunca ia a Brasília, inclusive era orientado a nem chegar perto. Não sabia nem que chefia comandava. Apesar disso, o salário pingava todo mês. Nunca trabalhou na vida. Vivia do luxo e suas mãos eram como as de uma moça. Tinha uma vida contemplativa.

De uns tempos pra cá, resolveu ser colecionador de arte.

Sempre em suas viagens trazia lembranças pra os amigos. Começou assim. Agora colecionava até excentricidades. Foi numa famosa casa de leilões de Londres que Richards comprou o tijolo. E pagou caro.

Era um tijolo comum. Nunca tinha recebido reboco antes, nem figurado em algum muro histórico como o muro de Berlim. O mais próximo que chegou de uma modelagem, foi a pancada que recebeu da colher do pedreiro que o partiu em dois.

na festa, as pessoas procuravam, mas não encontravam a famosa obra de arte que Richardes tinha adquirido para sua coleção. A curiosidade já se fazia presente, a festa de Richards era um sucesso.

-Seria aquele quadro em branco ali na parede? Ou aquele todo azul com a moldura dourada? Falavam alguns.

Foi quando Richards resolveu começar o protocolo cerimonial.

Caminhou até o centro da sala, de frente para o pedestal coberto, puxou o lenço que cobria e revelou o sinistro para todos.

-Blasfêmia gritou um Bêbado arrojado.

-Rapaz, você pagou uma fortuna por uma banda de tijolo. Imbecil. Gritou puto, o baixinho da construtora.

Anos depois a razão de Richards voltou. Ele percebeu seu erro e jogou fora a banda tijolo. Ainda que tivesse sido tocado por Midas, não valeria tanto. Pensava ele.

O tijolo acabou sendo vítima das intempéries naturais. Esfarelou-se. seu pó o vento levou ate o rio Potengi. Seus grãos se misturaram aos grãos da lama do rio.

Richards, depois de tentar negociar suas peças, sem sucesso, jogou fora a maioria. Perdeu uma outra parte. Uma escultura feita com sangue congelado derreteu depois de uma falta de energia. Ele tinha comprado até garrafinhas com o ar de Paris.

A lama do rio virou argila na mão de um escultor santeiro. Esse modelou um cristo crucificado. Levou até a olaria, cozinhou o barro até ficar com cor de tela. Depois de fria, levou a peça para a galeria.

Na peça pronta, no meio dela, uma imperfeição: um grão escuro, mais cozido que os outros.

serrão

terça-feira, 11 de agosto de 2009

os corredores vazios

Após caminhar sozinho pelos extensos corredores, ele chegou à sala principal. Lá estava exposta a Guernica, de Pablo Picasso. Diante da tela, o jovem sacou sua arma e pichou com tinta spray, palavras de ordem sobre ela:

- Lies all (Tudo mentira).

O corredor vazio do MoMa (Modern Museum of Art, New York) foi a única testemunha do desatino. A covardia daquele dia só teve a cumplicidade do vazio, que estava residente no Museu. Um vazio que ficou por muito tempo olhando para Guernica, esperando, junto com ela, os seguranças que nunca chegavam.

Logo após o incidente, Guernica, que é feita de tinta e algodão, ficou mais sozinha ainda. O vazio foi embora. Chegou um vazio inocente que a fez sentir seu corpo sujo, invadido por um câncer que reagia mal com sua química. Olhava para os extensos corredores e se perguntava:

- Por onde andam todos?

Lembrava dos anos de glória, quando era novidade. Valorizada e entendida. Todos os dias, ela facilmente enchia aqueles corredores de gente.

Guernica não imaginava o mundo que existia fora daquelas paredes. Como no “mito da caverna” de Platão, aquela sala era, há décadas, tudo que conhecia.

Minutos depois, o jovem transgressor foi preso. Foi levado para seus minutos de fama. Logo o mundo entendeu que um pequeno gesto para um homem pode ser uma eterna desgraça para a arte.

Toni Shafrazi era seu nome. Anos depois, tornou-se um grande negociador de arte contemporânea. Há trinta anos, é um dos que dizem o que é ou deixa de ser arte. Há trinta anos, coleciona galerias, museus e pinacotecas vazias.

Guernica nasceu em 1937 durante a Guerra Civil Espanhola. Nascia sob um protesto, um desabafo contra o bombardeio sofrido pela cidade por aviões alemães, aliados do ditador espanhol Francisco Franco.

Um pintor espanhol chamado Pablo Ruiz Picasso, algumas sombras e um pincel fresco, molhado de tinta negra e terebintina, que roçava ferozmente seu corpo, concebendo-lhe a existência, eram as lembranças mais significativas de sua gênese.

Sabia também que estava longe de sua pátria. Por proteção, pois, por lá, a insanidade reinava absoluta. E isso a tornava uma imagem, um ícone que emocionava as multidões.

Só não entendia o vazio dos últimos tempos. Estaria, ela, velha? Logo ela que foi feita para ser eterna?

A verdade é que há muito tempo os museus estão vazios. A iconografia que a originou acabou, mudou de lugar. A insanidade venceu. Reina absoluta em todo lugar. No mundo insano, basta uma ação midiática e pronto: o boato vira fato; o fato verdade; a verdade punição.

O jovem Toni, quem sabe, estava motivado pelo boato de que o bombardeio em Guernica nunca existiu?

Sabe-se, somente, que ele, hoje, é um dos maiores marchands de arte contemporânea do mundo. E que aquela tarde de 1973 no MomA mudou sua vida, a arte, e a segurança dos museus.

Um último gesto resgatou um pouco de seu ânimo. Ela saiu da sua caverna nas mãos de pessoas que lembravam as sombras de sua gênese e seu criador. Uma moça, mais jovem de todos, pacientemente vasculhava cada milímetro do seu acidente.

No caminho de seu deslocamento, viu um mundo diferente. Feio?

Sabia, agora, não voltaria mais para sua sala vazia. As pessoas voltaram. O vazio se foi. Estava a caminho de sua pátria. A caminho de Madri.

Nunca mais viu o jovem de sorriso perverso daquela tarde. Isso alegrava seu humor. E, no fundo de seus pensamentos, sabia que o vazio a ignorava, e que o jovem estava morto para ela.

Serrão


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

cueca sem dono


Enquanto todos se divertiam entre bebidas, cigarros e gargalhadas, ele estava sentado no urinol. Uma caganeira, uma dor de barriga danada. Mas isso era, quem sabe, o menor de seus problemas: não tinha papel no banheiro.

-Estou reiado, pensou edgar alan pôla.

Dor de barriga sempre chega de surpresa, sem avisar visita. Quando isso ocorre, a patente de banheiro é delegada ao lugar mais próximo. O individuo tem que ser rápido , discreto e rezar para ela ir logo embora. Na boêmia, a maioria dos bares não são apropriados para o assunto. Aí, o improviso e o jeitinho inteligente falam mais alto.


Muitas vezes, nessas horas, a regra geral é descontar na cueca.


Outro dia tinha uma cueca cagada no banheiro do bar de Nazaré. Até hoje ninguém descobriu o dono. edgar alan pôla sabia disso, por isso pensava:


-Pronto, meus problemas acabaram.


Aí outra cueca cagada foi parida, toda melada, apareceu na noite. Suja, esquecida, num canto de parede do banheiro.


Imediatamente sua presença assumiu identidade e emancipou-se entre as inúmeras conversas da boêmia.


Numa hora dessas os poetas não costumam perdoar:


-Todo mundo via e sentia, o cheiro da cueca existia. Seu sedimento secou, esfarelou. Mesmo assim, ninguém sabia. De quem era a cueca vadia. versejavam os poetas de plantão.


Quando a catinga de merda tomou conta do bar. A turma que não ainda não tinha visto a cueca comentava:


-Que catinga danada.“É o Rio Potengi”, diziam eles, pra maldizer o Rio.


Mas a pobre estava viva (ao contrário do rio). Num canto de parede, sem dono, sem mimo, toda cagada. A Geni das galhofas da noite.


-Coitada da cueca. Outrora amiga no conforto dos bagulhos, no arrocho dos ovos. Agora era uma excluída. Soutien pra peito mole, cueca pra ovo murcho diziam alguns filósofos bequianos.


Todo papudinho sabe que quando o meio de campo aperta, o estômago embrulha, e o banheiro tá sem papel, o jeito é sacrificar a velha cueca de copinho. Explicava a turma do deixa disso.


-E aí, quem foi? Perguntavam todos indignados.


Os gordinhos de plantão juravam que não eram. Uma gordinha, amiga da oitava série do Colégio Dinâmico, levou a culpa. Mas, por essa eu boto a mão no fogo. Eugênio meio-quilo não apareceu no dia. A companheira Márcia não iria deixar Dunga fazer uma barbaridade daquela. Logo num dia que faltou água na Cidade Alta. Nunca.


Leo, Alex pato rouco e as últimas aventuras no País de Mossoró, era o assunto principal da mesa.Chagas Lourenço arranjou um crachá de jornalista para os dois e eles foram cobrir o encontro de Lula com a Prefeita. Contaram que a Prefeita tomou café sem açúcar. O Presidente Lula então perguntou:


-“A senhora é diabética?”– Não sou Prefeitcha de Mossoró. Respondeu a amiga papangu.


Todo mundo ria, menos edgar alan pôla.


Paulo Eduardo falava mal da mãe, Chagas pagava a pensão de sua filha com Fia, Yasmine tomava meladinha de canudinho, Luciano de Almeida matava a saudade do seu Domeque. Tudo tranqüilo. Foi quando Tásia, a garçonete, do seu celular orelhão falou:


- É de edgar , serrão.


serrão